A endometriose é uma condição que afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva, segundo estimativas globais. Caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endometrial fora do útero, essa doença é amplamente conhecida por causar dor pélvica crônica, infertilidade e outros sintomas debilitantes.
No entanto, o impacto da endometriose vai além do sistema reprodutivo, afetando a saúde geral da mulher, incluindo a saúde cardiovascular.
Um estudo dinamarquês recente trouxe insights importantes sobre a conexão entre a endometriose e um aumento no risco de eventos cardiovasculares como infartos e derrames. Neste artigo, trazemos o que a ciência revela sobre essa relação e como as mulheres podem proteger sua saúde cardíaca.
O que é endometriose e como ela afeta o corpo?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica. O tecido endometrial fora do útero provoca inflamação sistêmica, estresse oxidativo e alterações hormonais. Esses fatores não apenas causam os sintomas clássicos da doença, mas também podem afetar órgãos e sistemas distantes.
Pesquisas sugerem que a endometriose afeta o metabolismo no fígado e no tecido adiposo, levando a alterações na função imunológica e na saúde vascular. Essas alterações são gatilhos para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
A conexão entre endometriose e riscos cardiovasculares
O estudo realizado na Dinamarca analisou mais de 60 mil mulheres diagnosticadas com endometriose, acompanhadas por décadas. Os pesquisadores compararam essas mulheres com um grupo controle sem a doença.
Os resultados mostraram que mulheres com endometriose apresentaram:
- 15% maior risco de eventos cardiovasculares importantes, como infartos e derrames;
- 24% maior risco de arritmias, como fibrilação atrial;
- 11% maior risco de insuficiência cardíaca.
Esses números são significativos, especialmente considerando a alta prevalência da endometriose na população feminina.
Por que a endometriose aumenta os riscos?
A relação entre endometriose e saúde cardiovascular pode ser explicada por três mecanismos principais:
- Inflamação sistêmica
A endometriose causa inflamação crônica. Essa inflamação danifica os vasos sanguíneos e aumenta a formação de placas de gordura, contribuindo para doenças como aterosclerose. - Estresse oxidativo
Mulheres com endometriose apresentam altos níveis de radicais livres, que danificam células e tecidos, incluindo as artérias. - Danos endoteliais
O endotélio é a camada interna dos vasos sanguíneos. Na endometriose, sua função é prejudicada, aumentando o risco de hipertensão e outros problemas cardiovasculares.
Sintomas que merecem atenção
Embora a endometriose já traga sintomas conhecidos como dor pélvica, alterações menstruais e infertilidade, mulheres com a condição também devem ficar atentas a sinais de problemas cardiovasculares, como:
- Palpitações ou batimentos cardíacos irregulares;
- Fadiga extrema sem explicação;
- Dor no peito ou sensação de aperto;
- Falta de ar durante atividades simples.
Esses sintomas podem indicar problemas subjacentes, como arritmias ou insuficiência cardíaca.
Estratégias para reduzir os riscos cardiovasculares
Embora a endometriose aumente o risco cardiovascular, há medidas que podem ajudar a reduzir esse risco.
1. Controle da inflamação
- Dieta anti-inflamatória: inclua alimentos ricos em ômega-3, como peixes gordurosos, nozes e sementes.
- Atividade física regular: o exercício ajuda a reduzir marcadores inflamatórios.
- Terapias hormonais sob orientação médica: podem ser utilizadas para controlar os sintomas da endometriose e reduzir a inflamação sistêmica.
2. Monitoramento Regular
- Acompanhamento com cardiologista: mulheres com endometriose devem incluir exames regulares para monitorar a saúde cardiovascular.
- Exames de rotina: verifique pressão arterial, colesterol e glicemia periodicamente.
3. Gerenciamento de estresse
O estresse pode piorar tanto os sintomas da endometriose quanto a saúde cardíaca. Técnicas como meditação, yoga e terapia podem ajudar a controlar o estresse e melhorar a qualidade de vida.
O papel da conscientização
Muitas mulheres não associam a endometriose a problemas cardíacos. Essa falta de conscientização pode atrasar o diagnóstico e o tratamento de condições cardiovasculares.
Além disso, a endometriose é frequentemente diagnosticada de forma tardia, com atrasos de até 7 anos, em média. Durante esse período, os danos inflamatórios e endoteliais podem se acumular, aumentando ainda mais os riscos cardiovasculares.
É essencial que profissionais de saúde estejam atentos a essa relação e informem as pacientes sobre a importância do cuidado integrado.
Perspectivas futuras
Pesquisas continuam explorando como a endometriose pode ser integrada a modelos de previsão de risco cardiovascular. Estudos como o dinamarquês são cruciais para ampliar o entendimento e desenvolver estratégias de prevenção mais eficazes.
Novas terapias, incluindo tratamentos epigenéticos e baseados em células-tronco, também mostram potencial para abordar os mecanismos subjacentes da endometriose e seus impactos sistêmicos.
Uma condição sistêmica?
A endometriose é mais do que uma doença ginecológica. Ela afeta a saúde feminina de forma ampla, incluindo riscos significativos para o coração.
O estudo dinamarquês destaca a importância de olhar para a endometriose como uma condição sistêmica, que exige um cuidado integrado e uma abordagem proativa para prevenir complicações a longo prazo.
Para as mulheres, entender essa conexão é um passo essencial para proteger não apenas sua fertilidade, mas também seu coração e sua saúde geral.
Se você vive com endometriose, converse com seu médico sobre como incorporar cuidados cardiovasculares à sua rotina. A prevenção é sempre o melhor caminho. Leia mais sobre endometriose em nosso blog para pacientes.
Referência:
HAVERS-BORGERSEN, Eva; HARTWELL, Dorthe; EKELUND, Charlotte; BUTT, Jawad H.; ØSTERGAARD, Lauge; HOLGERSSON, Christine; SCHOU, Morten; KØBER, Lars; FOSBØL, Emil L. Endometriosis and long-term cardiovascular risk: a nationwide Danish study. European Heart Journal, Oxford University Press, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae563. Acesso em: 14 dez. 2024.